Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Acre - Cruzeiro do Sul: Biodiversidade (continuação)

O efeito dos roçados e caminhos abertos nos seringais é similar ao da morte sazonal de bambuzais ou da devastação provocada por grandes tempestades, fenômenos que abrem clareiras nas matas e criam novos refúgios para a vida. Acredita-se que os povos indígenas tenham desencadeado o mesmo fenômeno em outras partes da Amazônia antes da chegada dos portugueses. “As antigas populações devem ter alterado pelo menos 10% da composição atual da mata”, avalia o pesquisador William Balée, da Universidade Tulane, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, cujo objeto de estudo é o impacto da ocupação humana na natureza. É óbvio que se está falando de áreas com baixos níveis de concentração populacional. Quando ela é grande, a presença do homem é sempre um desastre para a biodiversidade. Estima-se que o crescimento desenfreado da ocupação humana tenha provocado a extinção de até 20% de alguns grupos de animais.
A paisagem atípica da região do Alto Juruá também conta na hora de separá-la do que normalmente se conhece como Amazônia. Cachoeiras, capoeiras e montanhas de 600 metros de altitude espalham-se por um território que equivale a nove vezes o tamanho da cidade de São Paulo, localizado junto à Serra do Divisor, próximo às franjas da Cordilheira dos Andes, na fronteira com o Peru. O clima é mais úmido e mais frio do que na maior parte da floresta brasileira. Em junho e julho, a temperatura chega a apenas 7 graus. Um assombro em se tratando de uma região que fica a apenas 1.000 quilômetros da linha do Equador. No Rio Moa, um afluente do Juruá, há cenários espetaculares, como escarpas que formam cânions com paredões de 150 metros. No fundo desses vales surgem bromélias e orquídeas em número nunca visto no restante da Amazônia brasileira. Para completar, nas regiões mais altas existem florestas anãs, com mata baixa, nas quais o chão chega a ter camadas de 50 centímetros de raízes finas e musgo. Além de animais considerandos vulneráveis ou ameaçados de extinção, como a preguiça-real, o tamanduá-bandeira, a lontra e o tatu-canastra, há por lá peculiaridades como uma mariposa de 30 centímetros, considerada a maior do mundo, e um morcego com envergadura de 1 metro, o maior das Américas. Os especialistas acreditam que existia ali muito que descobrir. “Nosso conhecimento da floresta ainda é bastante precário”, avalia Peter Toledo, diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.
O estudo da biodiversidade na Amazônia ainda engatinha. Mesmo no caso das aves, os animais mais estudados, só se conhecem bem aquelas que vivem nas áreas em que existem postos de observação, o que corresponde a apenas 20% do território da floresta. A ignorância aumenta conforme o tamanho dos bichos diminui. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) conta com um acervo de 5 milhões de amostras de formigas. Desse total apenas 500 foram estudadas. Quando o assunto são os microrganismos, a obscuridade é maior. E não se trata de pouco-caso dos cientistas – mas das dificuldades inerentes à impressionante diversidade de seres vivos. Nunca se descobriram tantas espécies como atualmente. No ano passado, em todo o mundo, foram catalogadas 8.000 espécies que eram completamente desconhecidas. É um volume tal que num único dia chega-se a registrar 300 tipos de plantas, animais e microrganismos. Um novo mamífero é encontrado a cada três anos. É uma atividade febril que lembra a dos exploradores dos séculos XVIII e XIX, quando a maior parte do mundo animal ainda estava por ser descoberta. A área de estudo também tem aumentado nos últimos anos, pois os limites da biosfera, a faixa do globo onde se considera possível a existência de vida, estão sendo reavaliados e ampliados. Pesquisas recentes detectaram comunidades de micróbios em rochas enterradas a 2.000 metros de profundidade. Calcula-se que existam no planeta entre 10 milhões e 30 milhões de espécies de seres vivos, das quais conhecemos apenas 1,75 milhão. Mesmo descobrindo pequenos édens ecológicos como a região do Alto Juruá, a empreitada que biólogos e zoólogos têm pela frente continua gigantesca.

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